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{Quinta-feira, Outubro 30, 2008}


DEPOIS DAS URNAS, AS MÁSCARAS COMEÇAM A CAIR



Fato (amplamente previsto): ganhou o Kassab. São Paulo, o estadão atrasado, comprova sua vocação.

Porque São Paulo (principalmente a capital) não pode ficar sem um Maluf. Já que o original está velho e desgastado, cadáver insepulto que insiste em bravatear obras e mais obras (inúteis, feias, superfaturadas etc.), que se escolha um novo, novinho em folha.

Até nas três silabas do nome exótico, terminado em consoante, são idênticos Maluf e Kassab. Divergem, apenas, quanto à vida pessoal: o primeiro mantém um casamento quatrocentão e reforça os laços familiares, enquanto o segundo (olha o modernismo sendo mais uma vez deglutido!) é solteiro e gay. Aliás, ser homossexual é a única qualidade do novo (velho) alcaide (não sei por que tenta escondê-la!). Porque defeitos ele os tem todos de sua matriz política, embora sejam de partidos diferentes.

Criatura de Serra (que, dizem as más línguas, não o queria como vice, mas acabou adotando-o), será que tentará vôos solos ou permanecerá conduzido pelos fios (quase) invisíveis do Palácio dos Bandeirantes? O futuro dirá, já que a outra criatura (essa diretamente do Maluf original, o famigerado Pitta) tentou romper os fios e deu no que deu: era incompetente até na roubalheira e deixou a cidade em estado de calamidade (foi a Prefeitura que a Marta resgatou e que a mídia ignorou, para favorecer a nova criatura).

Como sempre, a mídia paulistana deu seu espetáculo à parte: manteve-se firme na defesa dos interesses da direita conservadora capitaneada pelo PSDB-DEM, com a cara de pau que lhe é notória. Sem meias palavras: Marta e PT, não! E o povo, coitado, votou embalado por um produto, o Kassab, muito bem embrulhado para presente por um marketing (justiça seja feita) extremamente competente.

Aliás, manipular as mentes é competência antiga da velha e boa classe conservadora e direitista: aprenderam a lição, não só com os republicanos dos Estados Unidos (como muito bem nos alerta o Azenha em seu blog), mas também com aquele marqueteiro famoso que levou os alemães no bico, na década de trinta (mas isso é tão antigo, que ninguém se lembra mais, só os judeus).

Misturado ao sangue liberal do PSDB, conseguiu-se camuflar muito bem do DNA do DEM os vestígios da OBAN (pesquisem, por favor, pesquisem: Operação Bandeirante), o DOPS (olha o Google aí, gente!), o DOI-CODI (o que é isso, mesmo?), que são, na verdade, os grandes vencedores dessas eleições, na capital atrasada (politicamente) do estadão atrasado e locomotiva do Brasil (hélas!).

A truculência foi substituída pela cara sorridente do alcaide, o construtor de hospitais, o pai da cidade limpa (um programa, diga-se de passagem, muito elogiado, que limpou a cidade de São Paulo de outdoors, de propaganda poluidora etc), o tiozinho da periferia (que votou na Marta, mas perdeu feio). Trocou-se o físico pelo psicológico, a porrada e a intimidação pelo marketing, pela sutileza de reportagens bem urdidas para enganar e provocar, pela mentira mil vezes repetida (como naquele velho chavão nazista, lembram?).

Seu sorriso colgate, sua postura macha e dinâmica, seu ar de homem que faz, exaustivamente ensaiados nos estúdios dos marqueteiros, colaram como máscara ao seu rosto.

Mas, máscaras caem.

Já na terça-feira, o valoroso e combativo (pelos direitos da direita, claro) jornal O Estado de São Paulo já estampava em primeira página: Kassab prepara governo voltado à periferia para tirar redutos do PT!

Fica, assim, mais do que claro aquilo que sempre foi óbvio: não é um governo preocupado com a situação da periferia, voltado aos interesses dos mais desassistidos, consciente da necessidade de resgatar a população da miséria, do abandono, da rejeição das classes privilegiadas dos Jardins e adjacências a que se dedica com afinco o Kassab, sob o beneplácito de mídias, como o Estadão, a Folha e a mentira deslavada de revistas semanais, como a Veja.

Não! Ele vai voltar-se para a periferia, porque precisa tirar votos do PT!

E tirar votos do PT para quê?

Para que o ventríloquo do Palácio dos Bandeirantes consiga dar mais uma rasteira em seus pares (como deu no Alkmim, o picolé de chuchu) e comece sua trajetória rumo ao Planalto Central (hélas, trois fois hélas!).

Ou seja, desfazem-se todas as nossas dúvidas: o boneco Kassab deverá continuar boneco, por mais quatro anos. Pelo menos.

Máscaras caem e, com elas, a falta de vergonha da direita, da mídia e do DEM/PSDB paulista.






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Um romance entre o professor e sua aluna. Banal? Não o jogo de sedução e erotismo de Lua Quebrada. Além de todas as convenções, do alto grau de entrega e do encontro de dois mundos tão diversos, há um sutil jogo de poder entre os protagonistas que põe em cheque a relação entre homem e mulher, entre tesão e amor e, principalmente, entre a razão das convenções sociais e o desafio de quebrá-las em nome de um sentimento ao mesmo tempo tão irracional e tão humano quanto a velha e boa paixão.

Autor: Isaias Edson Sidney

Publicação da Biblioteca24x7.

ISBN: 978-85-61590-45-1

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posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 1:38 PM


{Quarta-feira, Outubro 22, 2008}


GRITO, SIM, CONTRA A BARBÁRIE


O Caderno 2 do Estadão traz, hoje (22.10.08), uma entrevista com Frans Krajcberg.

Já ouviu falar dele?

O escultor de 87 anos está inaugurando uma exposição em São Paulo. Reside na Bahia, em Nova Viçosa. Viu sua família ser exterminada pelos nazistas, na segunda guerra: meu único desejo depois da guerra era fugir do homem, diz ele. Conhecido internacionalmente por sua luta contra a devastação da natureza, usa troncos de árvores crestadas para denunciar crimes contra as matas brasileiras, principalmente contra a Amazônia.

Suas palavras contra a barbárie humana são sempre duras:

Não gosto de falar de meu trabalho como algo artístico. Meu trabalho é minha revolta, meu grito contra a barbárie que o homem pratica. Precisamos fazer parar essa barbaridade. Do ponto de vista artístico, precisamos ver que a arte ainda não conseguiu abrir a porta para o século 21. Estamos diante dessa grande evolução teconocientífica e de um vazio absoluto político. Esse é o meu grito, que posso dar com meu trabalho. Só meu trabalho pode exprimir minha revolta contra essa barbaridade que o homem pratica contra o homem. Nunca houve um século tão bárbaro como o 20. E se continuar assim, o 21 vai chegar à barbárie mais violenta.
Assino embaixo.

E não preciso citar as chacinas, os assassínios por motivos fúteis, as balas perdidas, a pedofilia, o encanto das classes médias e altas pelas drogas, os traficantes e suas queimas de arquivo, a violência contra as minorias ou, nos lares, contra as crianças e as mulheres; as queimadas, a poluição das águas que bebemos, do ar que respiramos, do solo em que plantamos; a pobreza, a falta de perspectivas de vida de imensas populações em toda a Terra, a desenfreada exploração do homem pelo homem, o trabalho escravo; a ilusão de religiões que prometem o paraíso em troca dos poucos trocados de seus seguidores empobrecidos financeira e mentalmente, as filosofias do ganho fácil, o terrorismo, o ódio entre oriente e ocidente, a falácia de todas, absolutamente todas, as religiões; as políticas belicistas de nações e líderes sem causa ou defensores do quanto pior melhor...

Enfim, vamos deixar de ser hipócritas: precisamos fugir desse homem que vem sendo moldado há dois mil, três mil, dez mil anos de pregação belicista e de culto à morte. Ou adotamos o respeito à vida e à natureza como o mais alto valor, acima de deuses, de religiões, de políticas e de políticos e de nações e filosofias, ou ainda teremos que dar razão a Krajcberg por muitos e muito anos.

Gritemos. Gritemos o mais alto possível contra a barbárie.





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posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 2:34 PM


{Quinta-feira, Outubro 16, 2008}


ESTADÃO ATRASADO



Ainda corre por aí a velha piada de paulista. Alguém chega ao jornaleiro, pede um Estadão atrasado e recebe um mapa de Minas Gerais.

Hoje, no entanto, o grande eleitorado conservador (e atrasado) está justamente em São Paulo. A locomotiva do Brasil está num atoleiro só, e há muito tempo, aliás.

Uma sociedade formada longe dos modismos e internacionalismos da corte, tanto a capital quanto todo o estado se organizaram em torno da economia rural. São Paulo é fruto do mais profundo estamento social conservador, de bandeirantes caçadores de índios e de esmeraldas, de gente bruta que cavou cada centímetro de terra para construir suas casas, plantar suas roças e fincar suas raízes. Seu crescimento econômico foi, justamente, fruto dessa visão jesuítica de aparentar pobreza para amealhar riqueza.

Não à toa o barroco paulista é singelo e rude, se comparado com a exuberância de Minas ou da Bahia.

Enfurnada nas roças e nas fazendas, a sociedade paulista e, por extensão, a paulistana, à medida que ganhava força e poderio, ficava para trás em termos de valores filosóficos e políticos, fechada em si mesma, olhando com desconfiança um País que crescia meio aos trancos e barrancos ao som do samba e sob certa malemolência malandra cheia de improvisação. Enquanto, aqui, se dava duro. Sem choro nem vela.

São Paulo, a capital, conseguiu maquiar o conservadorismo com movimentos como a Semana de Arte Moderna, que sua sociedade soube tão bem soube deglutir, porque, afinal, eram os modernistas filhos peraltas da classe dirigente. Podiam tirar um pouco da teia de aranha das mansões da Paulista e dar à cidade um ar de intelectualidade up to date com um mundo que ela, a sociedade rica dos barões do café, admirava de longe e sonhava tornar-se, naqueles dias longínquos de 1922.

Antropofagicamente, a cidade assimilou o moderno. A seu modo: com o gigantismo de prédios e avenidas e o poderio de sua indústria, somados à força agrícola que vinha do interior e atravessava a capital para o porto de Santos. Estradas foram abertas, o dinheiro circulou fácil, e o Estado inteiro viu chegar o século XXI sob o signo da cana e da informática.

Antropofagicamente, paulistas e paulistanos assimilaram o moderno. A seu modo, porém. É só ir a qualquer cidade do interior e veremos os caipiras de hoje usando jeans, camiseta e grifes da moda, reunidos em bares universitários para curtir o som de bandas de música country, ou caipira, mesmo, sem nenhum pudor. E cultuar e cultivar os mesmos valores de seus pais, dos pais de seus pais, dos fundadores caçadores de bugres.

Se a capital desdenha um pouco essa moda e esses modismos, não fica atrás, no entanto, no culto aos mesmos valores da chamada sociedade quatrocentona. E votam segundo os ditames de jornais centenários e de vetustos velhinhos a fumar charutos atrás de mesas de jacarandá em escritórios da mesma Avenida Paulista dos antigos barões, puxando o fio dos negócios conduzidos por seus acólitos ou sucessores na Berrini, vestidos com ternos Armani e engessados em suas torres de vidro e aço.

São Paulo (tanto o Estado como a Capital) teve sempre governantes saídos das classes dominantes, como filhos legítimos ou adotados. E nesses últimos quarenta ou cinqüenta anos não foi diferente: quase todos herdeiros políticos das mesmas idéias muito bem engendradas pelos fundadores, desde os biônicos do golpe de 1964 (obviamente conservadores até a raiz dos cabelos, quando os tinham) até os mais recentes que, embora eleitos pelo povo, foi sempre um voto extremamente conservador, com um ou outro repente modernizador, como a dizer que somos, sim, os paulistas e paulistanos, um povo que admite algumas loucuras como as dos moços de 22, mas sem exagero, por favor, nada de muito radical.

Por isso, não há qualquer surpresa no resultado das eleições desse ano de 2008. Vencerá, na capital, como venceu no interior, mais uma vez, o voto conservador, o voto da direita que, antropofagicamente, deglute muito bem certos modernismos, mas não deixa que São Paulo perca, no contexto político da Nação, o posto (que se atribuía ao Estado vizinho, por gracejo) de Estadão atrasado, muito atrasado.

Sem qualquer graça.




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posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 4:27 PM


{Segunda-feira, Outubro 06, 2008}


CATURRICES



Nesses tempos de Machado de Assis pop, não seria melhor falar em casmurrices? Seis por meia dúzia. A merda é que estou caturro, ou casmurro.

Enquanto meu cérebro trabalha a mil, menos vontade eu tenho de sair de casa e enfrentar a megalópole. São Paulo, a cidade, está, cada dia que passa, mais inviável. Mais difícil. A convivência entre humanos, numa taba sem infraestrutura (e minha caturrice se estende agora ao corretor de texto, que não aceita, ainda, as regras na nova ortografia. Nova?), torna-se penosa, conflituosa, confusa.

Nem vou falar do caos do trânsito, com seus motoristas e motociclistas arrogantes e estressados. Também não vou falar do transporte público caríssimo (dois reais e quarenta, por uma passagem de ônibus ou metrô!), saturado, mal distribuído, que trata os passageiros como bois em caminhão de matadouro.

E para que falar da falta de paciência e de educação das pessoas, nas ruas, nos trens, nos ônibus, nas lojas, nos campos de futebol? Essas malditas torcidas organizadas que reúnem um bando de gente violenta, baderneira e briguenta! Dessa gente quero distância.

E a poluição? Nas ruas, a sujeira de sempre, provocada por gente que não tem conceitos mínimos de cidadania. No ar, metais pesados produzidos por indústrias (hoje, menos), por automóveis e, principalmente, por caminhões movidos a diesel vagabundo, por ser, talvez, mais barato. Nos rios, os esgotos clandestinos ou não, e a sujeira pesada das indústrias que só pensam no lucro.

Enquanto isso, vota-se. Para prefeito e para vereadores. E candidatos a prefeito que não discutem o futuro da cidade, as políticas de macrodesenvolvimento, o destino, enfim, de milhões de pessoas. E candidatos a vereadores que só querem saber de uma sinecura, de um bom emprego, gente que, em sua maioria, não representa nem vai representar absolutamente nada e ninguém, a não ser a garantia de um bom emprego e de mordomias por quatro anos.

E o povo? Ah! o povo! Esse zé-povinho cada vez mais conservador! São Paulo sempre foi uma cidade conservadora, mas agora está pior. E o mocinho de sorriso colgate, fabricado por um competente marqueteiro, deve ser o vencedor, para continuar a obra de enganar essa gente. Pode o senhor (ou senhora? Vade retro veneno!) Kassab ser bonzinho lá pra turma dele, mas, tenha a paciência!, votar no DEM, esse partido de merda que queimou meus vinte anos de vida com a ditadura que matou, prendeu e exilou milhares e milhares de pessoas, já é demais.

Quem se filia ao DEM, ex-ARENA (já esqueceu, povinho?), ex-PFL (também já esqueceu, zé-povinho?) e vota nessa gente bom sujeito não é: ou é ruim da cabeça ou doente do pé. Da cabeça, pra não lembrar o que fizeram com esse País. Do pé, pra não lembrar o quanto sofreram nossos fundilhos sob o esporão de calcâneo dessa malta de torturadores, de falsos elitistas, de sacanas, enfim, que criou, manteve e apoiou tudo o que de ruim aconteceu nesse País nos anos de chumbo!

Trânsito, superpolução, transporte ruim e caro, poluição, falta de educação e de cidadania e mais tantas e tantas mazelas dessa pobre e tão rica São Paulo a agente agüenta, mas de novo essa cambada a nos governar?

Tô fora, vou dar um tempo. Talvez bem longe, no interior. Que também é tão ou mais conservador...

Sem saída, fui assim mesmo. Com toda a minha caturrice. Ou casmurrice, que me perdoe o Machado.

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 2:30 PM


{Quinta-feira, Outubro 02, 2008}


TÉDIO DA VIDA


O tédio da vida. Tradição romanesca, cara a tantos poetas, escritores, filósofos e cidadãos comuns.

Absorventes de metafísicas inúteis.

Por que o tédio? Por que a desilusão de viver? Por que a descrença na vida?

O nada e o ser em constante diapasão opositor. Nada. Ser. Ser e nada.

Estupidez. Mera estupidez da tradição metafísica.

Tem o homem a mais complexa máquina de pensar, de sonhar, de imaginar, de criar: o cérebro. Com ele se sonham mundos. Com ele se imaginam soluções. Com ele se criam caminhos. E, sobretudo, com ele se pensa.

E pensar só é tedioso para os absolutamente imbecis.

Não pode haver tédio na vida, quando se tem um cérebro. Mesmo na mais profunda solidão, nunca se está sozinho, se podemos pôr para funcionar essa máquina magistral, se deixamos que os neurônios realizem a química do pensamento.

E se o cérebro sonha, pensa, imagina, cria e busca, ou seja, se ele trabalha sempre, não há estresse, a causa maior desse famigerado tédio da vida.

Tédio da vida é, portanto, fruto do estresse do cérebro, e o estresse é causado, por sua vez, pela falta de funcionamento dos neurônios, ou seja, por falta de trabalho. Um cérebro que trabalha vinte e quatro horas por dia, mesmo quando dormimos, é um cérebro sadio, que não pensa em tédio, que não se cansa da vida.

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 2:14 PM


{Segunda-feira, Setembro 29, 2008}


MACHADO DE ASSIS, QUEM DIRIA, ESTÁ MELHOR DO QUE NUNCA!


Cem anos da morte do bruxo de Cosme Velho. Cem anos! E jovem, ainda, com suas barbas brancas, seu ar imponente, seu monóculo.

Machado de Assis: um escritor pop!

Nem tudo são flores, entretanto, nessa comemoração que, aliás, tem sido bem ruidosa, na sua velha Academia, na mídia especializada, entre críticos mais afoitos. Têm-lhe atribuído tantas qualidades e tantas estranhas idiossincrasias, que o bruxo deve estar-se a revirar no túmulo. De rir.

Temos de admitir: Machado é, senão o maior, um dos nossos maiores escritores de todos os tempos. Mas, calma aí, pessoal: não é preciso enfeitar o rabo do pavão. Ele já é grande por si mesmo, sem necessidade de tantos estudos ditos profundos, que mais confundem do que aclaram a personalidade e os hábitos de homem comum com uma inteligência privilegiada.

Porque comum foi o bruxo, em sua vida, em seus empregos, em seu casamento. Até mesmo em sua reclusão, após a morte da esposa. Machado: um homem comum? Sim, apesar de gênio. Deixemo-lo em paz, assim. E leiamos, leiamos muito o velho bruxo. Ele tem muito a nos ensinar, não os críticos e pretensos estudiosos de sua vida ou pretensos explicadores de sua obra.

Que importa se Capitu traiu ou não o Bentinho? Que importa? Não, nenhuma explicação será mais intensa, mais visceral, que ler e reler Machado. Sem psicologismos, sem filosofias, sem sociologias, sem explicações complexas e análises acadêmicas.

Leiamos. Leiamos muito Machado de Assis. E ponto.



P.S.: O pequeno conto abaixo sintetiza o que Machado deve estar pensando de tantos que usam, hoje, a sua obra como forma de aparecer na mídia falando dele.


Um Apólogo

Machado de Assis

Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:
— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo?
— Deixe-me, senhora.
— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.
— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.
— Mas você é orgulhosa.
— Decerto que sou.
— Mas por quê?
— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?
— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu e muito eu?
— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...
— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás obedecendo ao que eu faço e mando...
— Também os batedores vão adiante do imperador.
— Você é imperador?
— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...
Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:
— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima...
A linha não respondia; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte. Continuou ainda nessa e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.
Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava de um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha para mofar da agulha, perguntou-lhe:
— Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.
Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:
— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.
Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:
— Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!



Texto extraído do livro "Para Gostar de Ler - Volume 9 - Contos", Editora Ática - São Paulo, 1984, pág. 59.







posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 1:23 PM


{Domingo, Setembro 07, 2008}


DIREITA, VOLVER!

O mundo da direita fundamentalista, de qualquer credo ou filosofia política, é muito bem ordenado. E fácil de nele viver. Principalmente para os espertos e os preguiçosos mentais.

As regras, absolutas e diretas, não permitem o meio termo, o pensamento crítico ou qualquer vacilo.

Aborto é crime. Ponto. Sexo fora do casamento: proibido. Ponto. Dentro, também, às vezes. Roubou? Cortem-lhe as mãos. Apedrejem-se todas as adúlteras. E ponto final. Não há dúvidas. Não há remorsos. Deus é fiel. Ou o senhor de todas as vidas e todos os atos. E nada há além dele.

Por isso, é fácil viver no universo fundamentalista: basta seguir as regras. E dane-se qualquer sinal de humanidade ou compaixão. Pensar, só no deus absoluto. Fácil, muito fácil para quem tem preguiça de pensar ou é muito estúpido para isso. Fácil, muito fácil, para os espertalhões que alcançam os postos máximos da hierarquia (porque a sociedade fundamentalista tem de ser severamente hierarquizada). E os príncipes, os reis, os sumos sacerdotes, os pastores, os rabinos, os bispos ou quaisquer nomes que se lhe dêem, esses são os que podem tudo, inclusive dar uma banana para as regras e as leis. Obedeçam ao que eu digo, não façam o que eu faço.

Quando assumem o poder, os direitistas fundamentalistas (não importa o credo, não importa a corrente política) podem ser, muitas vezes, competentes. Muito competentes. Cumprem com razoável persistência uma agenda social e econômica de progresso, de busca de bem-estar dos cidadãos. Alardeiam, até mesmo, programas sociais e construções de hospitais para os pobres.

Mas, não se iludam: os direitistas fundamentalistas (não importam credos e pensamentos políticos) desdenham as conquistas sociais. Nada querem para o povo, a não ser sua alma. Afinal, os pobres herdarão o reino de deus, não? Então, tudo o que fazem tem um só objetivo: escravizar as mentes, embrutecer o pensamento, até que a obediência total se instale num pensamento único. Para salvar sua alma, meu caro, para salvar sua alma!

Para isso, proíbem. Para isso, ordenam o mundo. Estabelecem regras para tudo: há o momento certo para rezar e o momento certo para fazer as refeições. Pode-se comer tal ou qual alimento, não esse ou aquele. Cada um tem seu papel claramente definido na hierarquia, que atinge as menores decisões do dia a dia. Nada escapa à regulação. Com isso, quebra-se qualquer sinal de criatividade, de liberdade, de crítica. Robotiza-se a vida.

E os direitistas fundamentalistas (não importam muito suas crenças ou idéias políticas, são no fundo sempre as mesmas) podem aparecer travestidos de pit-bulls de batom ou de penitentes e humildes seguidores da Opus Dei. Ou como afáveis e preclaros alcaides em busca de reeleição. E seus atos não têm nunca qualquer resquício de humanidade ou de ingenuidade. Para que seus fins sejam alcançados (sempre no reino de um deus onipresente, onipotente, onisciente) vale tanto ordenar a invasão do Iraque quanto proibir que as mulheres usem calças compridas.

Por isso, não há desculpa para elegê-los, para defendê-los, para bajulá-los, para segui-los: em toda e qualquer circunstância, fugir dos fundamentalistas direitistas (mesmo os que mais inocência aparentam) significa preservar a liberdade. A liberdade de pensar, a liberdade de viver.



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{Terça-feira, Setembro 02, 2008}


NO SAL, A SALVAÇÃO DAS ÁGUAS




Tenho, sempre que posso, defendido a despoluição de nossos rios, de nossas águas. Quase um grito desesperado contra sujar as águas que correm com merda, produtos químicos, lixo de toda espécie.

Em São Paulo, por exemplo, o rio morto Tietê mal corre entre suas margens, um rio denso, pegajoso, lento e pesado de décadas de poluição. As margens da represa Bilings, que abastece a maior cidade do País, foram ocupadas por milhares de famílias, graças ao trabalho de grilagem de gente muito desonesta, muito sacana, sob os olhos complacentes de Governadores, Prefeitos, Ministério Público e o escambau. Talvez umas cinco mil pessoas a jogar merda e lixo na represa, comprometendo o futuro de milhões.

No Brasil inteiro, o descaso com as águas que correm é obra da obtusidade de prefeitos que não investem em saneamento básico. Do povo mal preparado para entender a importância da preservação do presente para a continuidade do futuro.

Sanear é enterrar votos, dizem os imbecis.

O aqüífero guarani, um tesouro imensurável de águas límpidas do subsolo de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, talvez uma das maiores reservas do mundo, tem suas fontes poluídas com agrotóxicos e com a exploração predatória de poços artesianos.

O velho Chico, em Minas, tem grande parte de suas margens assoreadas impunemente pela estupidez humana. A atividade mineradora joga nas águas correntes em todo o canto metais pesados em troca de meia dúzia de diamantes ou de poucos gramas de ouro.

Água. Sem ela, não há Terra, não há vida, não há homem. E nós a emporcalhamos com nossa paquidérmica estupidez.

Podemos sobreviver sem ouro, sem pedras preciosas, sem petróleo e, provavelmente, até sem energia. Mas, sem água, o planeta Terra está definitivamente condenado.

Petróleo. Nesses tempos de preços astronômicos, o Brasil encontra no oceano, nas camadas profundas do pré-sal, um tesouro incalculável de energia. O que fazer? De quem é essa riqueza? Em que investir a formidável quantia de dinheiro que virá da exploração desse óleo?

Podem complicar, podem divergir, podem espernear, podem, até mesmo, falar bobagens na imprensa, como têm falado tantos especialistas, técnicos, políticos, jornalistas e toda essa cambada que surge a dar palpites cada vez que um tema de repercussão estoura na mídia, que a resposta é uma só: todo esse tesouro é do povo brasileiro. Ponto.

E mais: se tivesse que escolher um único investimento para toda essa fortuna, escolheria... a ÁGUA.





Obs.: Permitida e, até, incentivada a divulgação, desde que citados o autor e, pelo menos, o blog Veneno de Cobra.






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Autor: Isaias Edson Sidney

Publicação da Biblioteca24x7.

ISBN: 978-85-61590-45-1

Só disponível pela Internet, no endereço abaixo:

http://www.biblioteca24x7.com.br (ÁREA, à esquerda, clique em : ERÓTICO).


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posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 12:35 PM


{Quinta-feira, Agosto 14, 2008}


CASCA DE BANANA OU... APENAS VENENO?




Uma lei deve ser clara e objetiva.

Clareza significa não dar margem a duplas interpretações. Ir direto ao ponto exato de onde provém a dor, como diria um amigo meu. Sem lambanças. Sem desvios. Para não fazer a festa de advogados expertos e espertos. Na maioria, na verdade, espertalhões. E, também, para não deixar que a festança chegue à indústria de liminares, que enriquece outros tantos espertalhões togados, em todos os tribunais.

Uma lei deve ser objetiva, dizer a que veio, qual exatamente o crime e qual ou quais são as possíveis punições para ele. Circunscrever exatamente o seu campo de ação, o seu escopo. Sem margens para cabrioladas e desconsiderações, atenuantes e outras manobras tanto dos mesmos oabistas acima citados quanto de vetustos e ricaços de velhos tribunais da velha, cega, surda, muda, burra e mal-intencionada justiça brasileira.

Agora, os senhores togados do STF, o nosso tribunal maior, resolveram investir contra o uso de algemas em casos de prisão de autoridades e homens públicos que prevaricam. Ou seja, mais uma vez, a tal regulamentação legal, se tem um objetivo claro (proteger do vexame os nossos criminosos de colarinho branco), não é nada clara com relação ao fato de que um policial que algemar um criminoso terá de justificar por escrito e está sujeito a penas graves, se não convencer a algum juiz designado para julgar o caso.

A súmula do STF diz que só pode ser algemado preso que resista, tente fugir ou ponha em perigo a integridade física do investigado ou de outras pessoas. Ou seja, o policial alega, por exemplo, que o criminoso tentou fugir e ele nega. Como fica? Claro que, dependendo do advogado (e de sua capacidade de convencer o juiz), a justiça penderá para quem puder pagar mais e, por isso, ficará mais cara, mais inacessível a quem não tem grana e por aí se pode imaginar mil loucuras de nossos tribunais.

E haja dinheiro do Estado, ou seja, nosso, para indenizar criminosos de todos os matizes que tenham esboçado algum gesto devidamente estudado de resistência, para ser algemado e alegar depois que foi humilhado pela polícia. E pior: ser solto! Já que os nossos sábios ministros do STF, não satisfeitos em responsabilizar o Estado, também mandam soltar os espertinhos!

Um parêntese: acho que vergonhoso é ser acusado de desvio de dinheiro público, de roubalheira e de tantas outras canalhices que andam praticando por aí homens públicos que deviam primar pelo respeito à lei, às autoridade e ao povo. Não o fato de ser algemado. Nos Estados Unidos, por exemplo, é obrigatório o uso das algemas. E ponto. Sem dúbias interpretações, sem que ninguém possa alegar que foi humilhado ou coisa que o valha. Que o digam os autodenominados bispos da Renascer (e isso é só mais um veneninho contra essa seita, não podia perder a oportunidade).

Mas, espere aí: esta súmula vinculante (que tem valor de lei) tem, sim, clareza e objetividade! Eu é que não percebera: é claro que muitos juízes votaram sabendo muito claramente que o seu objetivo é resguardá-los, a eles próprios, de um futuro vexame!
Vai-se saber o dia de amanhã, não é, mesmo? Sábios, muito sábios, nossos juízes: com esses policiais violentos que andam por aí, que algemam até banqueiros, nada de cascas de bananas para suas excelências, atuais ou futuras!









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posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 3:39 PM


{Terça-feira, Agosto 05, 2008}


SOBRE HOMENS E DINOSSAUROS




Não sou negro. Também não sou branco. Nem índio, nem amarelo, nem de qualquer outra cor. Corre em minhas veias sangue – vermelho. Minha pele podia ser roxa ou lilás. Mesmo assim, ainda seria um ser humano. Tenho entre as pernas um membro exterior, mantido a testosterona. Meu cérebro foi, por isso, educado e condicionado a pensar como macho. Podia ser o contrário: membros internos, mantidos a progesterona. Com um cérebro educado e condicionado a pensar como fêmea. Em ambos os casos, seria (como sou) um indivíduo da raça humana. Não importam as características que nos diferenciam, por termos nascido homens ou mulheres. Não importa se temos diferentes a cor da pele ou dos cabelos, ou o tamanho dos olhos. Não importa se nasci e cresci no Alaska ou em Paris. Se tenho barba ou seios. Se tenho mais ou menos modos à mesa ou costumes estranhos ao comer, ao vestir, ao andar, ao viver, enfim. Somos todos humanos.

No entanto, o fato de sermos todos humanos não nos coloca no mesmo barco civilizatório. A raça humana, embora tenha desenvolvido capacidades e habilidades fantásticas em muito pouco tempo, se pensarmos em termos evolutivos, ainda conserva resquícios tenebrosos de seu passado glacial, aquele passado envolto em gelo e luta pela sobrevivência, quando nossos ancestrais aprenderam a usar a oposição do polegar para melhor abater não só a caça mas também o semelhante que pudesse chegar primeiro ao animal a ser devorado.

Somos humanos. Mas carregamos em nosso cérebro, em nossos genes, em nossa formação cultural, elementos terríveis de barbárie, de desejos de subjugação do outro e de destruição. Temos em nossa boca o gosto de sangue de nossos semelhantes e ainda não conseguimos impedir que instintos bárbaros nos façam desprezar a vida alheia por mesquinharias do dia-a-dia.

Já disse algures e repito-o agora: não somos anjos decaídos, mas bestas evoluídas. Não completamente evoluídas, porque o processo evolutivo tem caminhos infinitos que não conhecemos, tem meandros que não concebemos, tem experiências que não entendemos. Somos uma parcela mínima no imensurável rio da vida, que corre aparentemente sereno, mas que esconde águas revoltas, corredeiras e cachoeiras em seu lento e insensível deslizar para um oceano que nem nossa mais delirante imaginação será um dia capaz de sonhar.

Como qualquer outra espécie, o ser humano pode ser a praga a devorar as entranhas do planeta, se proliferar sem controle. Um vírus. Capaz de destruir a si mesmo e ao ambiente em alguns milhares de anos, interrompendo sua trajetória e desviando o curso evolutivo para outra espécie de vida que melhor se adapte àquilo que deixarmos como herança. Poderemos ser, daqui a sessenta milhões de anos, nada mais do que lembranças, como são lembranças de sessenta milhões de anos atrás os famosos dinossauros, que um dia dominaram a Terra.

Os dinossauros não tinham da natureza o domínio que a raça humana tem. Seu destino, portanto, era a inexorável destruição, por falta de meios de sobrevivência, mesmo que (segundo algumas teorias) eles não tivessem desaparecido na poeira de um estrondo imenso provocado pela colisão de um asteróide, que mudou o clima da Terra. A raça humana não precisa de um astro ameaçador vindo das profundezas do espaço: estamos despejando sobre a Terra, com a poluição, com a superpolução, com a destruição das reservas naturais, vários asteróides por ano, pequenos ainda, mas seu efeito devastador se fará sentir em algumas centenas ou milhares de anos. E o homem, então, desaperecerá, com toda a sua tecnologia, com toda a sua capacidade e habilidade. E com toda a sua arrogância.

Os dinossauros não tiveram escolha. Nós, os humanos, ainda temos. É só deixarmos de olhar para nossas diferenças de pele, de características, de cultura. É só começarmos a compreender a origem de nossos atos bárbaros, para combatê-los na origem. É só começarmos a nos respeitar como seres humanos e a respeitar a natureza. É só deixarmos de olhar o presente e fixarmos, humildemente, nossos olhos no futuro.







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posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 6:10 PM


{Segunda-feira, Julho 28, 2008}



I HAVE A DREAM



Quando vejo, na televisão, a figura esquia e elegante de Obama, não consigo impedir que ressoem em minha memória as palavras do célebre discurso de Martin Luther King:

Eu tenho um sonho que um dia nas colinas vermelhas da Geórgia os filhos dos descendentes de escravos e os filhos dos descendentes dos donos de escravos poderão se sentar junto à mesa da fraternidade.


Palavras. Sábias e belas palavras de um homem que, um dia, deu a vida pela causa da liberdade. Dificilmente, na História estadunidense, encontramos momento tão intenso de luta, de sinceridade, de bons propósitos.

Os Estados Unidos mudaram. A causa negra, hoje, atingiu patamares diferentes. Ainda que o racismo perdure em comunidades estanques e conservadoras, um negro tem conquistado mentes e corações do povo. Suas palavras são diferentes de Luther King, mas o sentido é o mesmo: fazer do seu País uma terra verdadeiramente livre. E mais do que livre, fraterna. Aquele tipo de fraternidade que nasceu na velha França e se espalhou, como idéia, pelo mundo todo. Mas cuja práxis o mundo todo tem ignorado solenemente desde a Revolução.

Então, eu penso: a tal fraternidade é tão utópica! Não bastaria outra idéia bem mais simples, bem mais concreta, como o respeito? Se nos dedicássemos a respeitar uns aos outros, se nos dedicássemos a respeitar as diferenças entre nós, as diferenças entre pessoas, entre crenças, entre culturas, entre nações... Já não teríamos um mundo um pouco melhor?

Liberdade, igualdade e... respeito!

Sonhar não é preciso, mas é o que nos resta.

Barack Obama, o negro culto, sagaz, orador capaz de empolgar duzentos milhões de alemães, poderá tornar-se o líder que o mundo espera?

E eu penso mais, lembrando Brecht: o mundo anda, há tempos, carente de líderes. De vozes que ecoem velhas verdades tão novas quanto a idéia de fraternidade embutida nas palavras de Luther King e, agora, de uma certa forma, reverberando nas palavras de Obama. Aquela fraternidade que se baseia no profundo respeito ao outro.

A esperança de um tempo em que o país mais poderoso do mundo não mais trucide todo um povo para matar um ditador chama-se Obama. Porque só um homem como ele pode dar consciência a esse povo que, até hoje, só olhou para o seu próprio umbigo branco, rico e profundamente preconceituoso com relação a todos os demais povos da terra.

Embora seja um negro de sólida formação a que só as elites brancas tinham acesso nos tempos de Luther King, Obama parece trazer em si não apenas o resultado das lutas ancestrais de seu povo, mas principalmente um conjunto de idéias novas, de que tanto necessitam os Estados Unidos da América. Eleito presidente, será, com certeza, um rosto mais ameno para os demais países do mundo, um rosto menos duro e menos arrogante.

Se será o líder que todos esperamos, só o tempo dirá. Mas que há no ar o toque dos sinos da renovação, disso temos plena certeza. E, principalmente, vêm da voz dos sinos que sopram pela voz de Obama alguns sinais de paz. Alguns sinais do velho e bom (mesmo que ingênuo, mesmo que utópico) pacifismo de líderes como Gandhi, Mandela e, claro, Luther King.

Eu também ainda tenho um sonho. Eu e todos os pacifistas da terra.

posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 3:26 PM


{Quinta-feira, Julho 10, 2008}


QUANTO CUSTA?

Se a um delegado, o Daniel Dantas ofereceu mais de um milhão, quanto pagou ao Meritíssimo Presidente do STF? Quanto?

Ou essa conta já está paga desde os tempos das privatizações do Governo FHC, quando o Meritíssimo era o Advogado Geral da União?



posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 3:15 PM


{Quinta-feira, Julho 03, 2008}


BEBUNS UNIDOS JAMAIS SERÃO VENCIDOS




No Brasil, é tradição: há leis que pegam e há leis que não pegam. A do cinto de segurança, por exemplo, pegou. E tem salvado milhares de vidas, por aí. Apesar de alguns argumentos estúpidos, no seu início, como, por exemplo, dizerem que a pessoa podia morrer afogada, por dificuldade de tirar o cinto de segurança, se o carro caísse num rio. Bobagem. Tanto, que a maioria absoluta dos motoristas brasileiros, hoje, usa o cinto de segurança.
Agora, a bola da vez é a tal lei seca. É restritiva? É, sim. É dura? Sem dúvida. Atinge direitos individuais? Claro. Afinal, o direito de encher a cara é sagrado, para milhões de brasileiros.

E aí entram as diferenças entre o bem coletivo e o direito individual.

Direito de beber até cair, de fumar até explodir, de se encher de cocaína até os tampos, isso parece ser o argumento por trás de muitos argumentos. Direito de ter lucro (e ponha lucro nisso!) com a venda de bebidas alcoólicas pelos comerciantes é outro argumento que está por trás da chiadeira de muitos donos de bares, restaurantes e assemelhados. E o sindicato dessa turma já prepara medidas judiciais que suspendam a lei. E, com certeza, encontrarão dezenas de juízes de plantão dispostos a conceder liminares à custa de alguns minutos de fama (e de alguns milhares de reais, claro).

Enquanto isso, a mídia se regala com prisões arbitrárias, com erros de interpretação e até com casos de gente que foi surpreendida pelo tal bafômetro porque usara desinfetante bucal à base de álcool ou porque comera um bombom de licor. Bobagem. Pura bobagem.

O pior são os tais especialistas em alguma coisa que a gente nunca sabe direito em que se especializaram. Também eles aparecem para os seus minutos de fama, nos telejornais. E com os argumentos mais estúpidos que se possam conceber.

Outro dia, um desses especialistas dizia com todas as letras que a tal lei é inconstitucional, porque o bêbado ao volante só poderia ser autuado, se estivesse dirigindo mal, cometendo alguma infração. Ou seja, é preciso esperar que o pudim de cachaça que está ao volante de uma viatura de várias toneladas de ferro e a potência de milhares de cavalos cometa alguma insanidade, como atropelar várias pessoas num ponto de ônibus, invadir um posto de gasolina ou se esborrachar num poste, para ser punido por estar embriagado.

E a lógica vai para o espaço.

Ora, discutir se a tal lei seca no trânsito é boa ou ruim é o mesmo que discutir se, numa sociedade que busque alcançar um mínimo de civilização, o bem individual está acima do bem coletivo. É claro que existem países em que isso não se discute.

Nos Estados Unidos, por exemplo, há um artigo absolutamente estúpido na Constituição deles que permite a qualquer cidadão possuir armas de fogo, sem dar a mínima para quem quer que seja. Ora, a tal Constituição deles foi redigida num tempo em que, primeiro, as armas de fogo não tinham o poder que hoje têm; segundo, as populações pioneiras precisavam defender-se do ambiente selvagem (e nesse ambiente incluíam-se animais e índios, sendo que índios e animais eram, na concepção dos pioneiros, a mesma coisa); terceiro... Deixemos pra lá, que os estadunidenses sabem muito bem as conseqüências de sua estupidez, quando algum moleque de segundo grau resolve matar alguns coleguinhas, por puro divertimento. É problema lá deles. Votemos à lei seca.

Então, se existe uma sociedade, o seu grau de civilização está no equilíbrio entre o direito individual e o bem público. Ninguém nega, hoje, neste momento em que vivemos, que encher a cara de cachaça seja um direito individual. Mas, sair por aí dirigindo um veículo de aço, em alta velocidade, com a possibilidade clara e evidente de que o indivíduo, sem os reflexos necessários para dominar essa máquina, possa atropelar, mutilar e matar pessoas não é, definitivamente, um direito de quem quer que seja.

Claro, ficou prejudicado o famoso happy hour, essa mania de adultos responsáveis de encher o caco toda sexta-feira após o horário de trabalho. Também as baladas de jovens pelas madrugadas de fim de semana ficaram sujeitas a penas duras, como a multa de quase mil reais. E prisão, com mais encrenca, como pagamento de fiança e processo criminal. E a suspensão da carta de habilitação, do direito de dirigir. Enfim, a coisa não ficou nada boa para os nossos boêmios e baladeiros. E todos chiam, claro. Jus sperniandi, com dizem velhos advogados.

Infelizmente, só não podem reclamar os pobres coitados que se encontram em vários cemitérios pelo Brasil afora, vítimas de nossos alegres e boêmios motoristas de carros particulares, de ônibus e caminhões, que povoam alegremente nossas ruas, avenidas e estradas, com suas máquinas de não sei quantas toneladas de aço, em alta velocidade, a matar gente indefesa, simplesmente porque pararam no botequim da esquina ou no restaurante da estrada para tomar sua sagrada cachacinha ou sua cervejinha gelada.

Os mortos não reclamam. A eles não é permitido discutir e opinar se a lei seca no trânsito vai ou não pegar. E os mutilados, coitados, quem quer ouvi-los, afinal?




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Autor: Isaias Edson Sidney

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posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 2:34 PM


{Sexta-feira, Maio 30, 2008}


A NOVA REFORMA DA LÍNGUA PORTUGUESA


Há pessoas, aqui no Brasil, já preocupadas com sua feijoada, seu feijão tropeiro ou com o virado das segundas-feiras: com lingüiça (trema e pronúnica do u) ou com linguiça (sem trema e sem a pronúcia do u, como em enguia)?

Vamos pôr os pingos nos is: não é reforma, é unificação.

E não tem nada de grandes pressupostos lingüísticos (ainda com o famigerado trema). Trata-se apenas e tão somente de uma tímida (na minha opinião) tentativa de unificar a escrita dos países que falam português. E a finalidade é clara: no intercâmbio entre esses países, não precisar adaptar (e até jogar fora, por incorretos) milhões de livros didáticos, sim, principalmente didáticos, que são enviados, por exemplo, do Brasil para países da África, em programas de ajuda à escolarização e alfabetização.

Porque, literariamente, não há dificuldade alguma em se ler um autor moçambicano, como Mia Couto, em termos de ortografia. Mesmo que ele escreva incenctivar, sabemos do que se tracta, ou melhor, trata.

As diferenças estão no terreno do léxico, porque há regionalismos cujos significados nem sempre os dicionários registram. Mas isso ocorre também no Brasil: cada região tem os seus termos específicos e são todos bastante saborosos. E fazem a riqueza da língua.
O português de Portugal, aparentemente mais conhecido por nós, tem jóias lexicais que são motivo de boas risadas e piadas, como o famoso termo bicha, lá usado para fila. Ou o cacete, que lá é pão e, aqui, é cacete mesmo.

Entre nós, brasileiros, e os demais povos lusófonos, há diferenças no modo de falar que nenhuma orttografia é capaz de registrar, com pouquíssimas exceções. Porque têm origens muito mais profundas, relacionadas ao clima, à cultura, às influências de outras linguas etc. Nossa prosódia é muito mais lenta, mais seculo XVI, enquanto portugueses e africanos, principalmente, falam mais rápido, comem mais as silabas, são mais econômicos (ou económicos).

Não há muito, portanto, o que se comentar sobre a famigerada unificação gráfica da Língua Portuguesa. Não é boa nem ruim. Mesmo porque ficaram de fora dessa unificação grafias que traduzem a prosódia, como a pronúncia aberta ou fechada do o em palavras como a que fecha o parágrafo anterior. Sinal, aliás, de bom senso.

Então, é relaxar e tocar o bonde, já que ortografia é muito mais uma problema de convenção do que de preocupações lingüísticas (ainda com o trema, que desaparece, felizimente – uma perda de tempo ficar buscando os tais dois pontinhos no teclado do computador). Ainda mais que haverá um tempo de adaptação, bastante razoável. Nada de correria para cursos de atualização para profissionais e estudantes, que tudo virá no seu devido tempo. Tampouco vale a pena gastar muita tinta para reclamar, dicordar ou falar mal da tal reforma.

Porque, na verdade, é uma mudança muito chocha. Há muito tempo, já, que perdemos a oportunidade de uma reforma profunda na ortografia de nossa língua, eliminando dificuldades como o uso do s e do z; do x e do ch e tantas outras. Agora, não há mais possibilidade disso. E nem adianta reclamar dessas dificuldades. Embora não seja consolo, são poucas as línguas modernas que têm sistema ortográfico fácil, tipo escrever exatamente como se fala ou falar exatamente como se escreve. Talvez só o Esperanto, mas isso já é outra história.

Em tempo: não será por falta de trema, que vamos mudar a pronúncia das palavras. Lingüiça continuará sendo lingüiça, com ou sem trema. Não há, portanto, nenhuma ameaça a essa iguaria tão apreciada pelos brasileiros e indispensável numa boa feijoada, no feijão tropeiro ou no famoso virado das segundas-feiras. E com um boa pinguinha (que nunca teve trema), então...



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posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 1:29 PM


{Segunda-feira, Abril 07, 2008}


ELEIÇOES MUNICIPAIS


Ano de escolha de prefeitos e vereadores em mais de seis mil municípios.

Ou melhor, ano de corrida aos melhores empregos do País. Principalmente, nas cidades do interior, onde prefeitos e vereadores ganham salários estratosféricos para a realidade de suas cidades, pouco produzem de útil e ainda comandam orçamentos inflados pelo repasse de verbas constitucionalmente obrigatórias do Governo Federal.

Quanto menor a cidade, melhor o emprego desses nossos políticos. Governam quase sem nenhuma fiscalização, porque os Tribunais de Contas não dão conta de fiscalizar todas as contas desse bando de gente muitas vezes despreparada e, quase sempre, mal intencionada.

Saúde pública, educação, saneamento básico, transporte municipal e outros quesitos básicos para o povo são obrigação das administrações municipais. Porém, o que se vê, na maioria das pequenas cidades desse nosso interior, é um descalabro administrativo de proporções continentais. Dirigentes que enriquecem por meio de licitações fraudulentas são eleitos e reeleitos porque ainda há o voto de compadrio, o voto de cabresto, mantido por famílias oligárquicas que não admitem perder o pequeno, mas lucrativo, poder que é o comando de cidadezinhas perdidas e distanciadas de qualquer possibilidade de fiscalização.

Contam com o voto de eleitorado de cabresto e com a sorte, para não serem surpreendidos com a mão no dinheiro público. O sistema de controle do Tribunal de Contas da União utiliza sorteios para fiscalização desses municípios. Isso leva a que se encontre um índice elevado de irregularidades, porém os culpados raramente são punidos, porque ou há demora na fiscalização (os fatos geradores de ilícito já prescreveram) ou a Justiça (sempre ela!) é lenta o suficiente para que os ladrões escapem de qualquer punição.

Nos tempos antigos, governar pequenos municípios (e passar a mão no dinheiro do povo) consistia na construção de fontes luminosas. É só viajar pelo interior que a gente ainda vê vestígios dessa época. Agora, há mais de mil maneiras de iludir o povo com obras caras e inúteis, enquanto as necessidades básicas, como saneamento, educação e saúde, por exemplo, que não rendem votos, continuam solenemente desprezadas por nossos alcaides e ilustres vereadores.

Saneamento é enterrar votos (mais fácil é poluir os rios e córregos, despejando neles o esgoto da cidade). Saúde é comprar (ou ganhar) ambulância e mandar os doentes para a capital ou para a cidade-pólo mais próxima. E educação, para quê? Para o povo ficar mais esperto e escapar do cabresto?

Pois, é assim: eleição municipal não tem ideologia partidária, não. As alianças são feitas a partir de interesses muito específicos e, em geral, contra o povo. Que chia, mas vota sempre nos mesmos. E paga a conta depois.

Pobre, cada vez mais pobre e iludido por falsas promessas, é esse País que emerge das eleições municipais!



iesidney@uol.com.br


posted by ISAIAS EDSON SIDNEY 12:46 PM

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